sexta-feira, junho 29, 2012

Caminhos fáceis, consequências difíceis.


Gilson era um cara quieto, não falava muito, moleque recém-chegado do nordeste, membro de mais uma família que veio pra São Paulo em busca de realização de sonhos, em busca da ilusão pregada em sua cidade de origem, de que a vida por aqui lhes seria melhor.
Morava com os pais e o irmão mais velho, numa casinha alugada, de alvenaria e mal acabada na rua debaixo, próxima a uma das escolas de ensino básico do bairro, perto também, do mercadinho do Gordo, que vendia pão e leite para vizinhança local. Era o que o pai, Seu Raimundo, podia pagar com o salário de servente de pedreiro na construção de um dos primeiros edifícios da cidade.
Dona Cida, como era conhecida a mãe de Gilson entre os vizinhos. Mostrava-se uma dona de casa dedicada, dividia-se entre os afazeres domésticos e o trabalho como diarista em casas de famílias ricas localizadas na região mais nobre da cidade, em determinados dias da semana.
Já Anderson, o irmão mais velho, sempre foi um problema para família, possuía diversas passagens pela polícia por vários delitos, havia acabado de sair da prisão e encontrava-se em regime condicional. Desempregado, dependia dos pais para tudo, não conseguia ocupação e também não se preocupava em encontrá-la.
Alheio a tudo aquilo, porém um pouco mais consciente que seu irmão, Gilson procurava viver sua adolescência sem grandes emoções, frequentava a escola, cursava o primeiro ano do colegial e almejava ingressar na faculdade quando tivesse mais idade. Não sabia ao certo o que faria, mas cogitar uma formação superior era um grande avanço, já que, para boa parte dos garotos e garotas inseridos na mesma realidade social que a sua, era algo impensável.
Nas raras vezes que a família encontrava-se reunida em casa, em frente à televisão, assistindo a algum programa de auditório, Ele comentava sobre sua vontade de estudar para ter uma profissão e vencer na vida, além de ajudar os pais. O pai, apesar de analfabeto apoiava-o, mas dizia que não poderia ajuda-lo, ele teria que ir atrás sozinho, por conta própria. Sua mãe encorajava-o a ir atrás do sonho. Citava o exemplo do presidente do Brasil para convencê-lo de que aquilo era possível – Olhe Gilson, ele veio de baixo e conseguiu chegar no alto, venceu na vida filho! Você vai conseguir também. Basta ter fé naquele que está lá encima.
Anderson, no entanto, reprovava tudo, dizia que aquilo era uma verdadeira bobagem, uma perda de tempo irrecuperável. Na sua cabeça, estudo, dinheiro e sucesso não estavam diretamente associados. Citava o exemplo dos professores, dos médicos como experiências totalmente negativas – Vejam os médicos, professores, estudaram tanto e o que são? Sobrevivem com salários miseráveis, trampam dia e noite. O que liga é ser jogador, montar um grupo de pagode, só assim você vai ganhar dinheiro pra carai, andar de carrão e cumê uma pá de novinha. É isso que você tem que fazer mano.
Gilson pensava naquelas palavras, sabia que sua tarefa não seria fácil, afinal, sair da condição que se encontrava para outro patamar de vida era quase impossível para os jovens em situação social semelhante a sua. Porém, aquilo não o abalara naquele momento, sentiu-se um pouco desmotivado, mas nada que o fizesse modificar seus planos.
Semanas se passaram e Anderson começou a fazer o corre para conseguir se reerguer novamente. Dois anos em cana, por trafico de drogas, fez com ele ganhasse experiência e a confiança dos malandros de quebrada, pois quando preso, em momento algum abriu o bico pra policia. Na cadeia, soube segurar a onda, foi esperto, ficou pianinho e conseguiu sair antes do fim da pena, disseram que foi por bom comportamento.
Anderson sempre fora complicado, já na adolescência demostrava que daria muito trabalho para seus pais, diversas vezes foi suspenso na escola, tinha fama de brigão e não gostava de estudar. Vivia cercado por garotos que seguiam na mesma linha comportamental que a dele. Em determinado momento, chegaram a formar uma gangue, e passaram a aterrorizar, não só seu bairro, mas os bairros vizinhos também. Pixavam muros, organizavam brigas com gangues rivais de outros locais, praticavam pequenos furtos no comércio do entorno. Desses pequenos delitos, passou a cometer crimes maiores, como furto a carros, a residências até envolver-se com o trafico de drogas.
Mas tudo isso se tornou passado, agora ele estava de volta e, levantar-se era seu objetivo naquele momento. E assim o fez, deu início a sua empreitada, percorrendo a quebrada, falou com um, conversou com outro mano e, logo estava ele no mercado novamente, recolocado, como dizem no mundo dos negócios. Fazendo aquilo que lhe proporcionava emoção, status e a acima de tudo, dinheiro fácil. Tornou-se passador, era responsável por vender o bagulho na boca de fumo.
Gilson, no entanto, sabia das atividades espúrias de seu irmão e tentava manter-se longe daquilo, contudo era complicado, pois Anderson tentava de todas as formas trazê-lo para dentro do esquema. Ele o aliciava, lhe dando presentes, coisas que o dinheiro de seus pais não poderia comprar. Objetos que ele sempre sonhara em ter, mas sabia que demoraria ou talvez, nunca tivesse condições de possuir.
Junto com os mimos, Anderson fazia o trabalho ideológico para tentar fazer com que Gilson mudasse de ideia em relação ao que ele considerava uma babaquice, estudar e entrar para faculdade. Gilson, por sua vez via-se tentado a seguir os passos de seu irmão, já que presenciava com seus próprios olhos a ascensão repentina do cara pelo qual tinha total admiração, por mais que ele não merecesse.
Pela primeira na vida, Gilson pode vislumbrar um mundo de possibilidades se abrindo em sua frente. As palavras de seu irmão entravam em seus ouvidos de forma suave, acompanhadas de bonés, tênis de marca cara, roupas que ele só via na TV ou quando recebia doação das patroas ricas de sua mãe. Ficava boquiaberto com as garotas que chegavam a ele perguntando sobre Anderson, deixando telefone, se insinuando totalmente. Presenciava a mesma coisa todos os dias.
Com o passar tempo foi se aproximando cada vez mais do irmão, começou a se interessar pelo que ele fazia, passou a frequentar os mesmos lugares, ter as mesmas amizades procurava sempre está perto dele. Tudo era lindo, fartura, grana, artigos de marca quente, uma vida que jamais havia desfrutado. Uma vida que não seria fácil de conseguir apenas estudando a noite e trabalhando dez horas por dia, tomando ônibus lotado e obedecendo a ordens de um patrão branco milionário.
Diante de tudo isso decidiu se espelhar em Anderson. Convenceu-se de que era dessa forma que ele queria viver dali pra frente. Abandonou todos os sonhos de outrora, faculdade, profissão, família, em troca daquele momento - pra que tanto esforço? Pensou ele, se as coisas poderiam ser mais fáceis, se tudo que ele tinha a fazer era ficar parado numa esquina qualquer, esperando a freguesia, certo de que viriam como vampiros a procura de sangue fresco. Dispostos a entregar tudo em troca de cinquenta ou cem gramas de pó, de erva. Estava decidido, era realmente isso que Gilson queria pra si.
Na manhã seguinte, acordou disposto a contar a Anderson que queria entrar no esquema, que queria trabalhar fazendo a mesma coisa que ele. Olhou na cama ao lado, Anderson não estava, foi até a cozinha, banheiro e nada também. Ele não voltara pra casa.
De repente ouvem-se palmas, gritos, cães ladrando, alvoroço. Gilson sai, abre o portão, um policial surge.
– É aqui que morava o Anderson?
– Sim Senhor!
            – Ele morreu nessa madrugada, vítima de uma troca de tiros, numa boca de fumo perto daqui.

2 comentários:

Leo Curcino disse...

Você escreve bem, velho.

Wellington de Almeida disse...

Valeu Leo! Tamo aprendendo heim. Nós dois.. hahha!